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Brazil Prime - Fortaleza Ceará

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Olhos No Longo Prazo

03/09/2009

Os gestores fundamentalistas - que analisam empresas a fundo e investem mirando anos à frente - estão aproveitando a crise para garimpar novas ações no mercado

Lia Lubambo Por Giuliana Napolitano | 19.02.2009 | 18h19

Uma semana antes do Natal, Fabio Alperowitch, sócio da gestora de fundos de ações Fama Investimentos, passou a tarde visitando as principais lojas de eletroeletrônicos da região do largo 13 de Maio, na zona sul da cidade de São Paulo. Conversou informalmente com vendedores e clientes de Casas Bahia, Ponto Frio, Magazine Luiza e Marabraz e entrevistou consumidores nas ruas. Outros gestores da Fama haviam feito um percurso parecido em Brasília, Goiânia, Porto Alegre e Rio de Janeiro nas semanas anteriores. As visitas corroboraram o que já haviam mostrado os estudos que a Fama faz sobre empresas e setores econômicos antes de decidir onde investir os recursos de seus fundos: que o consumo de televisores, DVDs e outros eletroeletrônicos deve cair em razão da crise econômica, mas que a compra de bens como bebidas e alimentos deve aumentar. "O brasileiro não tem o costume de poupar. Se fica sem dinheiro para dar entrada numa TV, usa o que tem com gastos menores", diz Alperowitch. Por causa desse cenário, um dos grandes investimentos dos fundos da Fama são as ações da fabricante de massas e biscoitos M. Dias Branco, dona da marca Adria. "Os números ainda não estão fechados, mas tudo indica que o faturamento da empresa em 2008 foi recorde, e ela continua crescendo", diz Alperowitch.

O exemplo da Fama mostra como agem os gestores de fundos de ações chamados de fundamentalistas - e como eles estão reavaliando seus investimentos frente à perspectiva de um ano mais complicado para a economia e as empresas brasileiras. A principal característica desses profissionais, como o próprio nome indica, é analisar, de forma minuciosa, os fundamentos das empresas - um conjunto de informações que inclui dados financeiros, linhas de negócio e até uma avaliação do desempenho do alto escalão. Nem sempre fazem visitas a lojas ou entrevistas com consumidores. Mas todos gastam alguns meses debruçados sobre os resultados de companhias, visitando escritórios e fábricas e pesquisando os concorrentes. Nada disso garante que esses gestores só façam apostas vencedoras. Quando a estratégia dá certo, porém, eles conseguem garimpar empresas sólidas, capazes de gerar resultados consistentes por vários anos.

O representante mais ilustre dessa linha de gestão é o americano Warren Buffett, o homem mais rico do mundo. Acionista de ícones americanos como Coca-Cola e American Express há mais de duas décadas, ele multiplicou sucessivas vezes o patrimônio de sua companhia de investimentos, a Berkshire Hathaway, fundada em 1957 - 1 000 dólares aplicados na empresa nessa época teriam se transformado em cerca de 20 milhões de dólares hoje, nas contas do próprio Buffett. A história da Berkshire sintetiza outra característica dos fundamentalistas: o viés de longo prazo - e isso quer dizer que as ações que eles compram podem levar meses ou anos para valorizar. "Saber o que eles pensam pode funcionar como um farol para investidores que pretendem deixar seu dinheiro aplicado em ações por períodos longos, superiores a três anos", diz Otávio Vieira, diretor do Safdié Private Bank, que assessora clientes de alta renda.

O que eles estão comprando hoje? EXAME perguntou isso às gestoras Dynamo, Fama, Geração Futuro, Orbe, Rio Bravo e Tarpon, empresas responsáveis por alguns dos maiores fundos de ações fundamentalistas do país - e, com exceção da Fama e da Geração Futuro, as demais tiveram desempenhos superiores ao do Índice Bovespa em 2008 (veja o ranking completo no Portal EXAME). Hoje, esses gestores estão investindo em ações de perfil mais conservador, ou seja, de companhias pouco endividadas, que tenham planos menos agressivos de crescimento e estejam baratas na bolsa quando comparadas às suas concorrentes. "De forma geral, são essas empresas que têm mais condições de resistir à crise", diz Mario Fleck, diretor de investimentos da Rio Bravo. Essa é a visão mais ampla desses gestores. As apostas específicas de cada fundo, porém, variam.

Na Rio Bravo, a decisão foi comprar ações de companhias de energia elétrica e saneamento, como Cesp e Copasa. Além de pagar mais dividendos que a média de mercado, essas empresas têm receitas que oscilam pouco e são protegidas da inflação, uma vez que tarifas e pedágios são reajustados por índices de preços. A carioca Dynamo optou pela fabricante de cosméticos Natura, que gera caixa, não precisa fazer grandes investimentos e tem boas chances de manter ou aumentar as vendas em períodos de crise, segundo Pedro Damasceno, sócio da Dynamo. "Numa economia em desaceleração, as consultoras que distribuem os produtos da Natura tendem a buscar uma renda extra e vender mais", diz. A Tarpon ampliou seus investimentos no banco Daycoval e no Pão de Açúcar, duas companhias tidas como bem administradas e cujas ações caíram demais nos últimos meses. Exceção entre os fundamentalistas, a Geração Futuro continua acreditando no potencial das commodities: aumentou os investimentos em Gerdau, Petrobras e Usiminas e passou a investir em Vale. "Mesmo que o lucro dessas empresas caia pela metade, ainda assim suas ações estão subavaliadas", diz Wagner Salaverry, gestor da Geração. "Quando olhamos para os próximos dois ou três anos, vemos que as perspectivas para as produtoras brasileiras de commodities, que estão entre as mais eficientes do mundo, não mudaram."

Não é típico de gestores fundamentalistas fazer tantas mudanças nas carteiras de seus fundos. Mas a crise econômica mudou radicalmente o cenário e jogou para baixo o preço de muitas ações. "Existem cerca de 100 ações baratas na Bovespa atualmente. Em 2007, eram menos de 20", diz Mario Fleck, da Rio Bravo. "Para nós, o grande exercício agora é olhar para as ações em que investimos, olhar para o mercado e ver quando vale a pena trocar", diz Eduardo Mufarej, sócio da gestora de recursos Tarpon. Trata-se de um exercício mais complexo do que parece. A crise econômica afetou as cotações da bolsa por pelo menos dois mecanismos distintos. O primeiro é um movimento puramente financeiro, decorrente da saída de milhares de investidores da bolsa e a consequente queda generalizada das ações. Boas empresas foram duramente afetadas nesse processo e hoje estão baratas. O segundo efeito da crise decorre do novo cenário na economia real - muitas empresas agora deverão vender e lucrar bem menos, e por isso valem menos. Na prática, é extremamente difícil delimitar onde termina um movimento e onde começa o outro. O desafio dos gestores nos próximos meses será separar as verdadeiras barganhas da bolsa de empresas que perderam valor de mercado simplesmente por terem negócios que se tornaram ruins.

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